Monday, June 2, 2014

She’ll never let you go

Ele dizia para si mesmo que não voltaria atrás. Iria esquecê-la e seguir com a sua vida, muito bem, obrigado. Ele ignorava todas as chamadas, às vezes até desligava o celular. Acordava de manhã e levantava antes que tivesse tempo para encarar a metade vazia da cama, porque se alguma vez tivesse parado para pensar, provavelmente chegaria à conclusão de que ela sempre estivera fazia, mesmo quando havia um amontoado de cabelos castanhos espalhados pelo travesseiro. Porque ela nunca esteve realmente ali. Não para ele. Nunca para ele.


Ele ia para o trabalho e sua mente desligava durante boa parte do dia. Um perfeito, porém humano, robô. E então, exatamente às seis e meia da tarde, ele era liberado e caminhava até sua casa, que felizmente não era tão longe assim. 100 ruas, duas viradas à esquerda, uma à direita, atravessando direto uma avenida, entrando numa rua onde o poste de iluminação havia quebrado há mais de um mês e ninguém havia se importado o suficiente para consertar. Era um prédio velho, mal pintado e relativamente barato para o bairro. Morava no sétimo andar e, por se tratar de um local antigo, não havia elevador, sendo sua única opção a escada. Ele subia, subia e subia. Parava no quarto ou no quinto andar para recuperar o fôlego, para recomeçar a subir. As escadas são a pior coisa, ela costumava dizer, mas pelo menos servem de academia.

Por falar nela, quando chegava ao sétimo andar a encontrava sentada ao lado de sua porta. Curiosamente, ela sempre estava lá. Era a mestra da manipulação e das desculpas bem elaboradas. Não que ela gastasse saliva se explicando para ele, tinha plena consciência de que ele não conseguiria resistir e apenas permanecia em silêncio enquanto o observava abrir a porta. Ele fingia que ela não estava ali, mas sabia que estava. Ele conseguia sentir o cheiro dela e, mesmo estando de costas, sabia que ela estava segurando um sorriso. Seus cabelos castanhos caindo delicadamente pelo seu rosto, embora “delicada” fosse a última palavra que usaria para descrevê-la. E havia seus olhos, seu lindos e sempre brilhantes olhos. Uma vez ele até brincara dizendo que eles brilhavam tanto para tentar esconder seu coração gelado, mas ela não gostou da brincadeira e agora ele sabia que era porque falara a verdade. Aqueles olhos que o seguiam para todos os lados, sempre atentos e astutos, e que sempre fazia com que ele sentisse como se houvessem armas apontadas em sua direção. Um tiro à queima-roupa. Uma morte rápida e certeira.

Finalmente ela soltava o sorriso que estava segurando, assim que entravam no apartamento, e o empurrava para uma parede qualquer. Ele desistia de lutar e entregava-se como se fosse a primeira vez. Deixava-a pisar mais um pouco em seu pobre e cansado coração e nem mesmo conseguia reclamar, porque bastava vê-la para que ele se apaixonasse novamente.

E mesmo que acordasse no meio da noite e sua cama estivesse vazia ele sabia que, de uma maneira dolorosa e reconfortante, ela sempre estaria esperando do lado de sua porta. Porque ela nunca o deixaria ir.

(escrito em 21/08/2013)

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