Ele ia para o trabalho e sua mente desligava durante boa parte do dia. Um perfeito, porém humano, robô. E então, exatamente às seis e meia da tarde, ele era liberado e caminhava até sua casa, que felizmente não era tão longe assim. 100 ruas, duas viradas à esquerda, uma à direita, atravessando direto uma avenida, entrando numa rua onde o poste de iluminação havia quebrado há mais de um mês e ninguém havia se importado o suficiente para consertar. Era um prédio velho, mal pintado e relativamente barato para o bairro. Morava no sétimo andar e, por se tratar de um local antigo, não havia elevador, sendo sua única opção a escada. Ele subia, subia e subia. Parava no quarto ou no quinto andar para recuperar o fôlego, para recomeçar a subir. As escadas são a pior coisa, ela costumava dizer, mas pelo menos servem de academia.
Por falar nela, quando chegava ao sétimo andar a encontrava sentada ao lado de sua porta. Curiosamente, ela sempre estava lá. Era a mestra da manipulação e das desculpas bem elaboradas. Não que ela gastasse saliva se explicando para ele, tinha plena consciência de que ele não conseguiria resistir e apenas permanecia em silêncio enquanto o observava abrir a porta. Ele fingia que ela não estava ali, mas sabia que estava. Ele conseguia sentir o cheiro dela e, mesmo estando de costas, sabia que ela estava segurando um sorriso. Seus cabelos castanhos caindo delicadamente pelo seu rosto, embora “delicada” fosse a última palavra que usaria para descrevê-la. E havia seus olhos, seu lindos e sempre brilhantes olhos. Uma vez ele até brincara dizendo que eles brilhavam tanto para tentar esconder seu coração gelado, mas ela não gostou da brincadeira e agora ele sabia que era porque falara a verdade. Aqueles olhos que o seguiam para todos os lados, sempre atentos e astutos, e que sempre fazia com que ele sentisse como se houvessem armas apontadas em sua direção. Um tiro à queima-roupa. Uma morte rápida e certeira.
Finalmente ela soltava o sorriso que estava segurando, assim que entravam no apartamento, e o empurrava para uma parede qualquer. Ele desistia de lutar e entregava-se como se fosse a primeira vez. Deixava-a pisar mais um pouco em seu pobre e cansado coração e nem mesmo conseguia reclamar, porque bastava vê-la para que ele se apaixonasse novamente.
E mesmo que acordasse no meio da noite e sua cama estivesse vazia ele sabia que, de uma maneira dolorosa e reconfortante, ela sempre estaria esperando do lado de sua porta. Porque ela nunca o deixaria ir.
(escrito em 21/08/2013)
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