Ela gostava porque era fácil. Porque ele nunca reclamava, nunca ficava com raiva, nunca a rejeitava. Ele a amava. E ela gostava de como as palavras soavam quando ele as dizia baixinho, achando que ela já estava dormindo. Mas ela nunca dormia, seus olhos nunca se fechavam em descanso, e enquanto a noite corria, lentamente dando espaço para o amanhecer, a culpa a pressionava seu peito a ponto de fazê-la perder a respiração. Ela sentava na cama e encarava a face adormecida dele, sereno e feliz. Era tão injusto que ela não sentisse o mesmo. Ele estava ali, pronto para dar todo o amor do mundo para ela, e ela simplesmente não conseguia retribuir.
Consumida pela culpa ela recolhia suas roupas, vesti-as e saia na ponta dos pés do apartamento.
E ele nunca reclamava de acordar sozinho, não em voz alta, porque no fundo, ela sabia que a cada dia que ele acordava e encarava o espaço vazio na cama, seu coração era quebrado em pedaços cada vez menores. Ela esperava que algum dia ele pedisse que ela parasse, que ele a visse parada na frente da porta do seu apartamento e tivesse força o suficiente para mandá-la embora. Ir embora e nunca mais voltar.
Era o que ela esperava, todas às vezes. Mas ele nunca fazia, e ela sentia quase que alivio quando ele retribuía seu beijo desesperado. Os dois corpos se colando como se fossem um só. Mais um dia, ela pensava. Só mais um.
Ele arrancava seu coração do peito e lhe entregava em uma bandeja para ela fazer o que quisesse. E ela fazia. Mesmo sabendo que era uma pessoa horrível por isso, simplesmente não conseguia resistir. Não quando ele era sempre tão entregue a ela daquela maneira.
Porque depois de cada dia de merda, de cada desilusão, ela sempre iria ter aquele coração quente e pulsante em suas mãos. Para acariciá-lo ou esmagá-lo. Não importava. Desde que estivesse ali.
(escrito em 07/09/2013)
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