O que realmente a incomodava em psicopatas era o quanto eles eram convincentes. Educados, gentis, com bons modos. Era até mesmo difícil imaginá-los prejudicando, machucando ou até mesmo matando alguém, era difícil se fazer acreditar que nada do que eles demonstravam era verdade, que tudo não passava de fingimento – um fingimento de altíssima qualidade – e que na verdade eles não sentiam nada daquilo. Nenhuma empatia. Nenhum sentimento. Nada. Eram completamente vazios.
Mas eles usavam aquela qualidade que não possuíam ao seu favor. Eles te faziam sentir empatia por eles e obtinham sucesso todas as vezes. Afinal, olha para a maneira bonita como ele fala, sempre tão arrumado, tão educado. Como alguém assim pode ser mal? Como pode me prejudicar?
Bem, eles podem. Quando você menos esperar você vai estar chorando no meio de um apartamento vazio e com a conta bancária zerada. Talvez, mas não era tão comum como os filmes de TV faziam parecer, seu corpo até mesmo fosse encontrado em algum beco escuro e esquecido por Deus.
Era nisso que tinha que se focar, nas consequências que baixar a guarda lhe causaria, mesmo que fosse apenas por algum segundo, um milésimo de segundo. Tinha que se manter sempre firme e focada. Era isso que a fazia uma boa investigadora, no final das contas.
Ela podia lidar com todos eles, com os que gritavam e tentavam lhe atirar coisas, com os que ameaçavam sua vida, com os que negavam e com os que ficavam calados por horas a fio. Mas era sempre desconcertante lidar com os educados. Com os que mantinham o sangue frio tanto quanto ela. Eles lhe causavam verdadeira dor de cabeça e a levavam a exaustão, tinha que ser mil vezes mais esperta, pois sabia que eles se mantinham atentos a todas as suas palavras, prontos para as usarem contra ela, como se ela fosse a interrogada ali e não eles.
Ah, perdera a conta das vezes que havia perdido a paciência quando era mais jovem. Já havia perdido a compostura, xingado e até mesmo, em um acesso de fúria descontrolada, tentado agredir um suspeito. Já havia sido tirada da sala de interrogatório à força, enquanto ele mantinham um sorriso divertido no rosto, zombando de sua fraqueza. “Acalme os seus nervos e volte daqui a algumas horas” o seu superior costumava lhe dizer, contrariada ela obedecia e saía chutando a primeira coisa que encontrava pela frente, a raiva borbulhando dentro de si com uma fúria capaz de devastar o país inteiro.
Mas se alguma coisa tinha lhe servido todos aqueles anos no FBI havia sido para lhe dar total controle sobre suas emoções. Depois de tanto quebrar a cara, ela finalmente havia aprendido a não se importar. Hoje, quando ela entrava em uma sala de interrogatório, sabia lidar até mesmo com o mais charmoso Ted Bundy. Sabia entrar nos jogos deles, pensar como eles – e às vezes se perguntava com um leve desespero se estaria se tornando como eles –, sorrir cordialmente e manter a classe.
Os anos a haviam endurecido de tal forma que nem mesmo os crimes mais hediondos lhe chocavam, ela poderia lidar com o próprio Hannibal Lecter sem nem mesmo piscar. Ela havia dedicado sua vida para aprender todos os truques daqueles monstros, para entrar em suas mentes, pensar e agir como eles. Em cada pessoa via uma vítima em potencial, em cada local uma cena de crime, em cada atitude suspeita um possível assassino.
Já não havia mais volta.
Ela olhava para os retratos de dez anos atrás e não reconhecia a menina sorridente e despreocupada que fora um dia. Agora tudo o que ela via eram sombras por todo lugar. Seu mundo colorido havia se tornado negro e as pessoas, antes tão alegres e vívidas, não passavam de seres mesquinhos e capazes dos atos mais vis e desumanos.
E se quando adolescente ela havia sido uma jovem ambiciosa que queria mudar o mundo, acreditando que no fim o bem sempre vencia o mal, hoje ela nada mais era do que uma adulta cansada que havia perdido completamente a fé na humanidade. Hoje ela olhava o mundo pelos olhos dos assassinos, psicopatas e loucos. E já não havia nenhuma beleza nele. Para cada serial killer que ela colocava atrás das grades havia mais duzentos e noventa e nove ativos só nos Estados Unidos.
Era desesperador. O mal crescia em cada canto escuro, em cada sombra e preenchia tudo. Ele triunfava diariamente. Porque a verdade era que aquele mundo que ela queria tanto salvar já estava perdido. E a batalha já havia sido perdida há muito, muito tempo, mesmo antes dela nascer.
Não havia mais nada a ser salvo.
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