Happiness hit her like a train on a track
Coming towards her stuck still no turning back
She hid around corners and she hid under beds
13 de Setembro de 2005
Às vezes você acordava de manhã e sentia falta das correntes. Sentia falta do peso do mundo nas costas. Sentia falta de olhar para manhãs nubladas e sentir toda a melancolia da estação, de entrar em sintonia com ela. Você aos poucos ia se esquecendo de como se sentia antes. Esquecia-se do cansaço que era tão frequente, sentia falta do alivio de cada novo hematoma que surgia em sua pele. Sentia falta da deformação, dos sentimentos tortos e intensos que pareciam tão errados que você não era capaz nem mesmo de dizê-los em voz alta. Sentia falta do olhar tão gelado quanto o inverno, que te congelava de dentro pra fora. Que sabia tudo sobre você e não te julgava por isso.
Mas agora você era feliz.
Agora você era tão leve que podia até mesmo ser carregado pelo vento. Os dias eram quentes e tranquilos, havia um bom dia carinhoso e um beijo doce toda manhã.
E por algum motivo que fugia à razão você se sentia inquieto. Porque toda essa leveza e tranquilidade lhe eram estranhas. Sentia como se não estivesse mais no próprio corpo quando olhava no espelho e tudo que via era uma pele branquinha e algumas poucas e velhas cicatrizes, desaparecendo por culpa do tempo, esquecidas. Assim como ele.
Foi quando você percebeu qual era o verdadeiro problema.
A felicidade lhe parecia superficial demais, ela não tocava a alma. Você sabia que quando ela partisse não iria deixar nem mesmo marcas para serem lembradas e lamentadas.
Sentia falta da dor. Mas agora era ela pesada demais para o seu corpo leve como o ar, e você teria que aprender a conviver com sua ausência. Com esse vazio enorme que era a única coisa que te fazia voar.
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