"Eu amo você" Ele tinha os olhos fixos nos meus quando soltou a frase sem nem sequer hesitar. Mesmo depois que ela morreu no silêncio ele continuou mantendo o contato visual, como se quisesse abrir um buraco em mim só com a intensidade do olhar. Apenas fiquei lá, imóvel, me perdendo na tonalidade única de azul que eram seus olhos, não aquele azul com pedacinhos verdes ou castanhos ou cinzas, mas um azul intenso, completamente uniforme. Em toda minha vida havia visto poucas pessoas com íris naquela tonalidade e, posso dizer com a mais absoluta certeza, nenhuma com a força daquele olhar. Ele era sempre assim, firme, forte, sem nunca hesitar. Lembro que no começo evitava olhar ele nos olhos porque sempre ficava com a impressão de que eles conseguiam ver o que tinha dentro de mim. Talvez eles realmente conseguissem. Talvez não.
Não sei dizer precisamente por quantos minutos ficamos em silêncio apenas nos olhando. Eu tentava achar uma resposta, mesmo sabendo que ele não me cobraria uma. Essa era uma das qualidades de Nick, ele era direto, ia lá e dizia exatamente tudo o que queria, sem enrolações ou meias palavras, jogava tudo em cima de você e esperava você digerir e se acostumar com a informação, sem nunca pressionar ou cobrar uma resposta.
"É engraçado, sabe. Sempre quis me sentir assim, e agora é como se eu não soubesse me sentir de outra forma" Ele me deu um sorriso meio doce meio triste, deve ter percebido a minha dificuldade em achar o que dizer. Foi só então que ele desviou os olhos para procurar o maço de cigarros e o isqueiro no bolso do casaco. Assim que ele o acendeu se debruçou no parapeito da sacada. O apartamento dele era uma cobertura numa das áreas mais ricas da cidade, os prédios lá eram tão altos que você não conseguiria ver o céu se estivesse em um andar mais baixo, mas daqui você conseguia ver tudo: os prédios vizinhos, as avenidas lá longe, o céu escuro e sem estrelas e até as pessoas andando apressadas lá embaixo - mesmo que elas não passassem de pontinhos minúsculos -, foi uma das razões para ele ter escolhido aquele apartamento em especial, gostava de ver o movimento e as luzes da cidade, isso sempre o fazia se sentir parte de algo. Eu nunca o entendi, mas não podia negar que era um bom lugar para se morar.
"O amor é como você esperava?" Finalmente falei. Não foi a melhor resposta, nem a que eu estava procurando, mas era a única que eu tinha. Andei até ficar ao lado dele e roubei seu cigarro, recebendo um olhar divertido em resposta. Quando traguei senti o gosto da menta no mesmo instante, o gosto dele.
"É meio parecido com você, sabe. E com alguns clichês que a gente vê em filmes, mas ainda assim, diria que é exatamente como você"
"Dói?" Era uma pergunta infantil e me arrependi dela no instante em que a pronunciei, no segundo que o Nicholas me deu o seu típico sorriso de quem tem um coração partido, exceto que dessa vez era verdade.
"‘Tá doendo agora, dói toda vez que olho pra você, mas isso não significa que eu não esteja gostando. E é diferente, sabe. Às vezes fico me perguntando se todas as vezes que eu estive tão desesperado procurando sentir alguma coisa, na verdade era isso, eu só queria sofrer por alguém além de mim"
"Somos dois masoquistas, você e eu, sabia?" Ele riu divertido, tirando o cigarro da minha boca e o jogando andares e andares abaixo antes de me beijar. Os lábios de Nick eram uma mistura de tabaco, menta e um tipo de doçura que era exclusivamente dele. De repente me dei conta de que a resposta que eu queria encontrar era “Eu também”
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