Às vezes você para no velho café
perto do centro e senta na última mesa da fila, onde consegue observar todos no
lugar e mesmo assim passar despercebido. Dessa vez você escolheu o dia 15 de
março de 2003. É uma manhã clara com poucas nuvens no céu, a imensidão azul se
estende acima da cidade, o verde do pequeno parque do outro lado da rua parece
combinar perfeitamente com o céu claro e o vento frio da manhã. Uma garota
morena está sentada na mesa em frente a sua lendo um livro grosso de capa
preta. A atendente simpática usa um avental azul escuro e tem o cabelo preso
num rabo de cavalo. Um cara de camisa vermelha toma sorvete do outro lado da
rua. Os carros estão passando em velocidade pela avenida.
Você olha o relógio.
07h23min.
Ela vai chegar exatamente às
07h32min. O sino da porta vai tocar anunciando sua chegada, como seria com
qualquer outro, e como qualquer outro ela vai se dirigir ao balcão e pedir um
chocolate quente com dose extra de açúcar (ela sempre teve essa mania de adoçar
tudo demais). A atendente vai sorrir e passar o troco. E ela vai abrir o
primeiro sorriso do dia. Quando ela sorri parece que se ilumina e o sorriso dela
combina particularmente com o dia de hoje, claro e esperançoso. Ela está usando
uma calça jeans meio surrada, uma bota estilo cowboy cor de areia que chega até
um pouco abaixo do joelho, uma regata branca simples e você sabe que ela tem um
casaco extra na bolsa, porque ela sente frio fácil. Ela sempre vai desse jeito
pro trabalho: calça jeans, camiseta ou regata, botas ou tênis. O cabelo loiro
ondulado ainda está comprido, caindo pelas costas e ela o amarra em um coque
desajeitado logo que se senta à mesa. Ela sempre vai naquele café antes de ir
trabalhar. Ela trabalha numa biblioteca e costuma dizer que é o melhor trabalho
do mundo porque ela pode ler o dia inteiro e é sempre calmo e silencioso. Ela
está lendo agora, por sinal, "O
Retrato de Dorian Gray". Passa bom tempo concentrada no livro quase se
esquecendo do chocolate quente em cima da mesa.
Você sabe que quando ela estiver
saindo vai tropeçar nos próprios pés, mas antes de cair vai recobrar o
equilíbrio, tudo isso sem deixar uma gota do que resta do chocolate cair. Ela é
tão desastrada quanto boa em evitar a queda no último instante. Você também
sabe que ela nunca consegue tomar o chocolate quente todo, “doce demais!” reclama em eterna contradição.
É, você sabe um monte de coisas.
Mas se contenta em observar só de longe, tirando uma vez ou outra onde se
atreve a sentar uma mesa mais perto ou segui-la pela rua, mas nunca perto o
suficiente pra que ela perceba a sua presença. Ela ainda não te conhece. E você
sabe que tem que parar de espioná-la quando vê uma duplicata sua do outro lado
da rua quando sai do estabelecimento atrás dela.
Ou escolher outros dias. Você não
sabe bem o porquê, mas sempre acaba vindo pra março de 2003. Isso foi mais ou
menos dois anos antes de vocês se conhecerem. Antes de você mudar completamente
a vida dela (e ela mudar a sua).
Só quando ela entra no prédio
grande e imponente que é a biblioteca central que você decide que é hora de ir
embora. Como fumaça você desaparece, deixando apenas o vazio em seu lugar.
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